
A final da Copa do Mundo de 1998 me traz diversas lembranças. Boas ou ruins, não faz muita diferença. O que importa mesmo é que são lembranças bastante fortes, pois trata-se da única que tive oportunidade de assistir na mesma cidade em que foi disputada.
Naquele ano, eu ainda morava em Freiburg e por isso não estava distante mais do que 5 horas de carro de Paris. Sem grana pra ver no estádio um dos jogos, decidi que era obrigatório pelo menos estar lá se o Brasil chegasse à final, o que acabou acontecendo. Porém, como a grana continuou faltando, tive que abortar mais essa idéia. Quando já não via mais qualquer possibilidade de conseguir viajar até a capital francesa, eis que ocorre o que passo agora a contar:
Em Freiburg, o bar que eu mais freqüentava era o El Bolero, que, como sugere o nome, era um bar latino. Mas muitos alemães e outros não latinos passavam por ali também. Era lá que eu estava na véspera da final, assistindo à decisão do 3º lugar entre Holanda e Croácia. No meio do jogo, aparece o Sérgio, um amigo brasileiro; pouco depois, vem o Jorge, um camarada nosso argentino. Quem nos servia era a Charlotte, uma húngara muito gente boa e que andava com a gente e os demais da nossa galera. Tínhamos até um esquema com ela. Apenas um de nós pedia - e pagava - um chope. Os outros dois vinham "de brinde". Era sempre bem barato tomar uns porres no El Bolero.
Numa das vezes em que a Charlotte veio deixar a cerveja pra gente, o Jorge, na brincadeira, disse: "Charlotte, que tal ir a Paris para ver la final del Mundial?", e ela respondeu: "Por supuesto. Salgo a la medianoche". No começo achamos que ela também estava brincando, mas logo descobrimos que não, que era bem sério. Ela tinha carro e estava mesmo disposta a rumar pra Paris assim que terminasse seu turno. Sendo assim, cada um foi pra sua casa pegar uma trouxa de roupas, grana, escova de dentes etc. Combinamos que estaríamos à espera dela na porta do Bolero às zero horas em ponto.
Na hora combinada, os três estavam lá. Minutos depois, para a uns 20 metros de nós a coisa mais parecida com um carro gigante movido a fricção que já tinha visto na vida até ali. Quando já nos preparávamos pra começar a fazer piadas sobre aquela carroça, eis que a Charlotte sai de dentro dela e passa a fazer sinais pra irmos até onde estava.
Não dava pra acreditar que ela estava mesmo pensando em ir pra Paris ou pra qualquer outro lugar num troço daqueles. Mas o pior é que ela estava. Pior ainda do que isso, a gente acabou topando. Pegamos a estrada. A porra do carro era tão pequeno, que até eu, que tenho só 1,68m de altura, era obrigado a ficar em posição fetal lá dentro. O Jorge, imenso de gordo, foi na frente. O peso dele entortava o encosto do assento dianteiro, que só ia até o meio das costas e o fazia praticamente ficar deitado no colo do Sérgio. Esse, já meio coroa, pedia pra Charlotte parar o carro o tempo todo. Daí descia e ficava na beira da pista fazendo alongamentos. Dizia que precisava soltar os músculos e esticar as pernas. Parece que tinha uma bad trip qualquer no joelho ou outra merda assim. Só sei que a gente não andava. E mesmo em movimento a coisa não era muito melhor, não. Pra não forçar demais o motor - que era sempre esfriado com bastante água nas paradas pra exerícios do Sérgio -, a dona do carro não dava mais do que 80km/h nele. Na hora de escolher qual caminho fazer, ficamos sabendo que ela não tinha documento algum daquela joça. Já não era mais supresa alguma e também já tínhamos andado muito pra voltar. Então decidimos pegar a estrada velha, em mão dupla, porque nela o risco de sermos parados pela polícia seria bem menor. Vale a pena citar que apenas a Charlotte e eu estávamos legais naquele grupo. Jorge e Sérgio eram mais clandestinos do que qualquer confecção de chineses em São Paulo. Essa escolha aumentaria o tempo de viagem consideravelmente, mas não tínhamos alternativa. Era foda ser jogado pro acostamento toda vez em que éramos ultrapassados por um caminhão. Mesmo o vento já era capaz de levar aquele caixote com rodas pra fora da porra da pista. E quando já era manhã, era no mínimo divertido ver a cara das pessoas que passavam por nós. Todas elas tinham um olhar curioso, de quem se perguntava o que fazia aquele bando de húngaros com camisas e bandeira do Brasil, ou o que fazia aquele bando de brasileiros num carro da Hungria.
Quando a viagem já passava de sete horas - foram dez ao todo -, a motorista pediu arrego e tive que assumir a direção. Ela foi pro banco traseiro e, em segundos, apagou. Vendo aquilo, o Jorge começou a me pilhar pra pisar um pouco mais fundo no acelerador. Pedia ele: "Metele gas al coche, hombre! Ella no se va a despertar. Metele gas, o nunca más que llegamos a Paris". Fiz isso. O bicho berrava mais do que atriz pornô brasileira. Mas não tirei mais o pé. Entramos em Paris e peguei o viaduto que nos levaria até o centro, onde esperaríamos um amigo meu português que vive lá e que me hospedou em sua casa na primeira vez em que estive na cidade. No exato instante em que descia o viaduto, ouvimos um baita estouro vindo da parte traseira do carro, onde ficava o motor. Em questão de segundos, subiu uma fumaceira danada, que logo formou uma nuvem imensa. Pra nossa sorte, tinha um posto logo adiante. Eu estava na pista do meio e nem olhei pra ver se vinha algum outro carro atrás. Aproveitei que ainda estava no embalo da descida, joguei o carro com tudo pra direita e praticamente invadi o posto. Precisavam ver as caras dos frentistas e clientes que estavam ali. Neguinho não acreditou no que via. Quatro "brasihúngaros" a bordo de uma lata velha da Europa comunista enfumaçando o centro de Paris inteiro. Puta mico! Nem bem parei o carro e desci dele de um salto só. Fiquei morrendo de medo de que aquela porra fosse pegar fogo.
Depois de tomar um esporro da Charlotte, que se ligou na hora no que tinha ocasionado aquilo, fui com o Sérgio procurar um orelhão pra ligar pro Manel, meu amigo portuga. Ela e o Sérgio ficaram no posto pra tentar consertar o motor. Quer dizer, ela descolou umas ferramentas no posto e foi logo se enfiando debaixo do carro. O Jorge ficou só olhando mesmo. Um vexame completo pra raça masculina. Cerca de meia-hora depois, o Manel apareceu. Ele também não acreditou quando viu como a gente tinha viajado da Alemanha até Paris. Não era possível que tivéssemos chegado até ali naquela banheira. Acreditou menos ainda quando apareceu na sua frente uma naniquinha ruiva simpática e sorridente, com as mãos todas cagadas de graxa. Ainda hoje sinto vergonha do olhar que ele lançou sobre nós três.
Bom, sobre o jogo, não há muito o que falar. Foi tudo uma merda. Assistimos à partida por um telão na Champs Élysées, que estava completamente lotada. Rolou um puta porradeiro entre a polícia e os árabes, garrafa pra cacete voando, e, pra foder de vez com tudo, fazia um calor insuportável. Não deu pra ver o jogo direito. Foi tão ruim, que só fui saber que tinha sido 3 a 0 no outro dia, quando comprei o jornal e vi o corno do Petit ajoelhado e de braços abertos na primeira página, comemorando seu gol, o último daquela esculachada humilhante que os caras deram na gente. Foi bad trip pra cacete. Tudo o que rolou depois foi de chorar. Nada mais teve graça e eu só queria ir embora dali rapidinho. Mas não dava e tivemos que passar a noite num hotelzinho já fora dos limites de Paris.
Na volta, pra não perder o costume, fizemos merda novamente. Pegamos uma saída errada e fomos parar lá perto da Euro Disney, o que aumentou o tempo de viagem em uma hora em relação à ida. Só mais um detalhe dentre um monte de outros que fizeram daquela uma das experiências menos agradáveis que tive. Porém nada foi mais insuportável do que ter de aturar por onze longas horas o sorrisinho de satisfação do filho da puta do Jorge. E pensar que tudo isso só aconteceu por causa de uma brincadeirinha do maricon. É isso que se ganha por ir na onda de argentino.
Até a próxima, rapaziada.
E VAMOS VOTAR!
perdemos a copa por causa do jorge.
ResponderExcluirHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
sensacional!!!