
Mais um Carnaval se aproxima do fim. Se bem que pra mim ele nem começou. Já faz alguns bons anos que me aposentei da folia. Quem me vê durante a festa de Momo hoje não acredita no que já fui um dia. Atualmente, só quero que o Carnaval acabe logo e o ano comece de verdade.
Apesar de não ser mais nem sombra do folião que já fui, ainda gosto de algumas coisas do Carnaval. Uma delas é o desfile das escolas de samba. É claro que não assisto a todos. Na íntegra, só o da minha Portela. Os outros eu vejo no compacto da Globo no dia seguinte. Também não há como negar que tudo ficou muito mais chato nos últimos quinze anos. Ou até mais. Na real, os desfiles se tornaram um porre a partir do momento em que a Globo passou a ser a única a transmiti-los. É incrível o poder que essa filha de uma puta tem de estragar praticamente tudo em que põe a porra da mão. Ainda era aturável quando os narradores eram o Fernando de Almeida Vanucci e a Glória de Almeida Maria. Mais por ele do que por ela, verdade seja dita. Cachaceiro de marca maior, Vanucci tinha uma certa intimidade com o samba e muitos sambistas cariocas, o que dava um tempero à transmissão normalmente insossa da dona do Brasil. Mas Vanucci levou um pé na bunda e, no seu lugar, entrou o Cleber Machado. Agora, tem o Luis Roberto, gente boa, mas tão mala quanto seu antecessor. A Glenda, pobrezinha, é outra que se perde no meio daquela tragédia. A cada ano que passa a Globo consegue aproximar, pelo menos nas transmissões, o Carnaval do Rio ao de São Paulo, algo tão digno de ser levado a sério quanto o campeonato tocantinense de bocha.
Como nada é tão ruim que não possa ficar pior, tem ainda a tal Esquina do Samba, chefiada pelo Chico de Almeida Pinheiro. Chico, um cara por quem nutro extrema simpatia, claramente não tem a menor idéia do que tá fazendo ali. Mineiro de nascimento e paulista por adoção, Chico se sente tão à vontade naquele espaço quanto se sentiria Ozzy Osbourne se tivesse que fazer o Sarau, programa comandado pelo Chico na Globonews, com Pena Branca e Xavantinho. Simpático e boa praça, o pobre coitado se esforça pra parecer menos desambientado e acaba muitas vezes tornando a coisa mais constrangedora do que o (a)normal. Ontem, por exemplo, enquanto a Portela passava, chamou a Gracyanne Barbosa, também conhecida como namorada do Belo, pra uma rápida entrevista. A mulher mais parecida com um travesti que já vi na vida desfilaria pela Vila Isabel pouco depois daquilo. Perguntas óbvias, respostas mais óbvias ainda e, no final, a clássica pedida pra que a "musa" sambasse. Foi como dar corda numa daquelas bailarinas de caixinhas de música. Em questão de milésimos de segundos, a dita cuja já se rebolava e arreganhava aqueles dentes pra câmera, mostrando pouco samba no pé e muitos músculos no corpo. Muitos mais do que o que se poderia aceitar numa mulher de verdade. Até aí, nada demais. Tudo isso é protocolar e eu entendo numa boa. Só não precisava o Chico ficar fazendo evoluções desconjuntadas ao fundo. Um pouco demais. Certamente uma das imagens mais grotescas desse Carnaval.
Pra complicar ainda mais a vida do Chico Pinheiro, arrumaram pra ele um time de comentaristas que parece ter saído ontem do curso de publicidade da PUC. Com seus óculos de armações fashion, cachecóis que não combinam nem um pouco com o calor escaldante da cidade e tênis All Star, Geraldo Carneiro, Deborah Colker e Pedro Luís são, sem sombra alguma de dúvida, a pior coisa já vista em termos de samba em toda a história. Dá pena do Haroldo Costa, o único ali que tem idéia do que fala. D-E-P-R-I-M-E-N-T-E.
Sinto muito a falta da Manchete e da Band nessas horas. A Band nunca transmitiu desfiles, mas cobria todos os bailes do Scala. Do Vermelho e Preto ao Gala Gay, era diversão e putaria na certa. Tinha pra todos os gostos. Após uma certa hora, nada mais era proibido nem exagerado. Afinal, era Carnaval, porra! Já a Manchete, que durante um ano (84) reinou sozinha nos desfiles da Sapucaí - depois disso passou alguns anos dividindo as transmissões com a Globo -, tinha no comando de sua equipe o Paulo Stein, um sujeito por quem, ao contrário do Chico Pinheiro e do Luis Roberto, não tenho o menor respeito. Um verdadeiro merda como jornalista esportivo, dependente da ajuda de amigos do meio pra não viver desempregado e que fala "pra mim ir", "pra mim fazer" etc. Mas à frente do time de Carnaval da Manchete, dava show. Ao lado de Fernando Pamplona e outras feras - Haroldo Costa tava lá -, a Manchete nos brindou com transmissões emocionadas e emocionantes, incendiadas pela paixão que todos ali tinham pelo Carnaval e que muitas vezes fez com que a porrada quase comesse na cabine, pois era normal os caras deixarem suas preferências falarem mais alto, o que não raramente deixava os outros meio putos. Xingamentos, choro e socos na bancada eram tão comuns quanto as imagens intrauterinas de algumas das passistas. Que saudade!
O olho grande da Globo acabou com a festa. Literalmente. Hoje não é mais divertido assistir aos desfiles do que era acompanhar a narração dos chatíssimos concursos de fantasias do Copacabana Palace, todos eles vencidos pelo Clóvis Bornay. Do jeito que está, me sobram poucas opções além da que fiz. Agora é só esperar pela quarta-feira de cinzas e pelo real começo do ano. Já não é sem tempo.
Mas nem tudo foi uma merda na cobertura da Globo. No comecinho do desfile da Grande Rio, que levou pra avenida um enredo homenageando os grandes enredos da era Sapucaí, a repórter descobriu Milton Cunha, quando esse estava prestes a adentrar a passarela com uma fantasia que o fazia parecer um bombom Sonho de Valsa. Estava completamente alucinado, olhos arregaladíssimos, pupilas dilatadas e dentes trincados. Não parecia dar a menor atenção ao que dizia a pobre repórter. Milton, carnavalesco de longa data, era o grande homenageado daquela ala, sendo, inclusive o destaque dela. E era justamente sobre isso que a garota tentava lhe perguntar. Eis que Milton Cunha, sem parar de se requebrar nem por um mísero instante, com sua voz de marreca, solta a pérola: "Carnaval sem veado e mulher gostosa, não é Carnaval. 121 Miltons Cunhas... SARAVÁ!". Definitivamente Milton Cunha foi a melhor coisa do carnaval da Globo em muitos anos.
Saravá pra você também, Milton!
